Cresci entre dois mundos — e isso me ensinou a ler as pessoas
Por Samira Hauache · · 6 min de leitura · 15

No primeiro vídeo eu contei como nasceu o livro. Hoje eu quero contar quem escreveu cada uma daquelas páginas. Porque antes de ser escritora, eu fui só uma menina tentando entender um mundo que me chegava dividido ao meio.
Se você também cresceu no meio de duas verdades que nunca combinavam, fica comigo. Acho que essa página é sua também.
Nasci de um encontro improvável
Meu pai, Ciro. Minha mãe, brasileira. Entre eles, vinte e cinco anos de diferença de idade. Culturas diferentes, religiões diferentes, formas diferentes de amar, de pensar, de educar.
Enquanto minha mãe me dizia que eu podia conquistar o mundo, meu pai acreditava que o mundo precisava ser conquistado com cautela. Um me empurrava para a liberdade. O outro tentava me proteger através das tradições que carregava desde a própria infância.
Eu cresci entre esses dois universos. E talvez tenha sido exatamente ali, naquele meio, que nasceu a minha maior paixão: observar as pessoas.
O que se aprende crescendo entre opostos
Quando você cresce ouvindo opiniões contrárias todos os dias — dentro de casa, à mesa, na sua própria formação — você aprende cedo uma coisa que muita gente leva a vida inteira para descobrir: a verdade quase nunca mora de um lado só.
Aprende que duas pessoas podem se amar profundamente e ainda assim enxergar a vida de maneiras completamente diferentes.
Eu cresci tentando amar os dois sem escolher um lado. E isso moldou quem eu sou.
Desde muito pequena, desenvolvi uma curiosidade quase insaciável sobre o comportamento humano. Por que pensamos diferente? Por que sentimos diferente diante da mesma situação? Por que algumas pessoas escolhem permanecer, enquanto outras atravessam oceanos atrás de uma vida nova?
Essas perguntas começaram cedo. E nunca mais me abandonaram.
Aos 17 anos, o mundo ficou grande demais
Com dezessete anos eu entrei na aviação. Aos dezoito, fui contratada como comissária de voo.
Ali eu descobri que o mundo era muito maior do que eu imaginava. Todos os dias eu encontrava centenas de histórias dentro de um mesmo corredor de aeroporto. Famílias se reencontrando. Casais se despedindo. Crianças voando pela primeira vez. Gente indo realizar sonho, gente fugindo de pesadelo.
Sem perceber, eu já estava colecionando histórias muito antes de escrever qualquer livro. O avião era o meu observatório, e as pessoas, o meu estudo.
O dia que dividiu a minha vida em duas
Até que, em 2002, a vida me obrigou a parar.
Eu sobrevivi a um acidente aéreo. Naquele voo sobreviveram também outros passageiros e toda a tripulação. Mas existem momentos que partem a nossa vida em duas — um antes e um depois. Aquele foi o meu.
Depois daquele dia, eu nunca mais consegui olhar para o tempo da mesma forma. Entendi uma coisa que carrego até hoje: a vida não faz promessas. Ela só oferece oportunidades.
Passei a viver com uma sensação constante de urgência. Mas não era urgência desesperada — era uma urgência consciente, de quem finalmente entendeu que o tempo é o bem mais precioso que a gente tem.
Hoje eu acredito de verdade que até cem anos seria pouco para tudo o que existe para aprender, sentir, construir e amar. Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido viver pela metade.
Voltei a voar — mais humana
Depois da recuperação, física e emocional, voltei para a aviação. Mais madura. Mais consciente. Mais gente.
Viajei por todas as regiões do Brasil, conheci as capitais e as cidades pequenas ao lado delas. Vi de perto sotaques, culturas, religiões, costumes e formas completamente diferentes de enxergar a vida. E a cada encontro, a minha maneira de compreender o ser humano ficava um pouco maior.
Também vivi perdas. Meu primeiro casamento não deu certo — mas dele nasceu meu primeiro filho, e ele sempre será um dos meus maiores presentes, assim como os outros dois que vieram depois.
O padrão que a gente repete sem perceber
Com o tempo, percebi uma coisa que muita gente faz sem se dar conta: às vezes a gente repete histórias de família tentando encontrar finais diferentes.
Nem sempre encontramos o final. Mas aprendemos.
Foi aí que a vida me deu outra oportunidade. Conheci o homem que se tornaria meu companheiro de jornada. Há dezoito anos construímos uma família, onde nasceram meus outros dois filhos. Uma parceria feita de sonho, respeito e coragem.
Ficar ou recomeçar
E então veio outra grande virada: a crise na aviação brasileira. O caos aéreo. As oportunidades diminuindo, as portas se fechando, dois grandes acidentes marcando o país.
Como acontece com tantos imigrantes, chegamos naquela encruzilhada que quem já viveu reconhece de longe: ficar ou recomeçar.
Escolhemos recomeçar.
E foi assim que a Ásia entrou na minha vida — sem que eu imaginasse que aquela única decisão iria transformar absolutamente tudo.
Mas essa é uma história para o próximo capítulo.
Por que esse canal existe
No fundo, eu nunca escrevi só para mim. Eu escrevo sobre todas as pessoas que um dia precisaram deixar uma versão antiga de si mesmas para poder nascer de novo.
Talvez seja por isso que esse canal exista. Porque eu acredito que cada pessoa carrega uma história capaz de transformar a de outra. E enquanto houver histórias para contar, ainda vão existir borboletas prontas para voar.
Na esperança de que nenhuma morra antes do tempo.
O acidente, a decisão de recomeçar, a Ásia — contei tudo em vídeo
Aqui couberam as origens. No vídeo cabe o rosto, a voz, o silêncio entre uma frase e outra — as coisas que texto nenhum alcança. Se alguma parte disso soou como a sua história também, é lá que o próximo capítulo começa.
Algumas pessoas passam. Outras ficam. As certas sabem.


